Lula é forte, mas Ciro avança: voto do presidente não impulsiona Elmano no Ceará

Pesquisas revelam vantagem consistente de Ciro Gomes sobre Elmano de Freitas e levantam uma questão incômoda para o PT: por que parte do eleitorado que vota em Lula prefere Ciro para governador?

Por Paulo Sergio de Carvalho 18/08/2026 - 11:25 hs
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Lula é forte, mas Ciro avança: voto do presidente não impulsiona Elmano no Ceará
Ciro avança: voto do presidente não impulsiona Elmano no Ceará

A campanha pelo Governo do Ceará começa a revelar uma contradição que pode se transformar em um dos principais temas da eleição de 2026: Lula continua forte entre os cearenses, mas essa força não está se convertendo, na mesma proporção, em votos para o governador Elmano de Freitas (PT).

É justamente nesse espaço que Ciro Gomes (PSDB) aparece como um dos principais beneficiários do atual cenário eleitoral.

A fotografia mais recente do Datafolha é contundente. Na pesquisa realizada entre 10 e 12 de agosto, Ciro aparece com 52% das intenções de voto, contra 33% de Elmano, uma diferença de 19 pontos percentuais. No segundo turno, a vantagem também é expressiva: 55% para Ciro contra 37% para Elmano.

O dado chama ainda mais atenção quando se observa que a disputa ocorre em um estado onde Lula mantém forte presença eleitoral. Na pesquisa presidencial BTG/Nexus divulgada em 17 de agosto, Lula aparece com 41% no primeiro turno entre os cearenses, enquanto Flávio Bolsonaro registra 36%. Ou seja, o presidente continua competitivo no mesmo eleitorado em que seu principal aliado no Governo do Estado enfrenta dificuldades para alcançar a liderança.

O problema da transferência automática

A estratégia do PT parte de uma lógica aparentemente simples: Lula é forte no Ceará, portanto seu apoio deveria impulsionar Elmano.

As pesquisas, entretanto, mostram que essa transferência não acontece de maneira automática.

Enquanto Lula mantém uma posição competitiva na corrida presidencial, Elmano aparece atrás de Ciro na disputa estadual. O resultado sugere que uma parcela relevante do eleitorado consegue separar as duas escolhas: pode votar em Lula para presidente e não necessariamente repetir o voto no candidato apoiado pelo presidente para governador.

É importante destacar que essa conclusão é uma interpretação política dos resultados gerais. Os levantamentos citados não permitem, isoladamente, afirmar exatamente quantos eleitores que escolheriam Lula também optariam por Ciro.

Mas o contraste entre as duas disputas é evidente.

Ciro lidera até entre eleitores de baixa renda

Os números do Datafolha também dificultam a tese de que a vantagem de Ciro estaria restrita às camadas mais ricas ou aos setores tradicionalmente menos identificados com o PT.

Entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, Ciro registra 50% contra 33% de Elmano. Na faixa entre dois e cinco salários mínimos, Ciro chega a 58%, contra 32% do governador. Entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos, são 50% para Ciro e 37% para Elmano.

O dado é politicamente relevante porque mostra que a liderança de Ciro não está concentrada em apenas um segmento socioeconômico.

No interior, a vantagem também aparece

Outro ponto que merece atenção para a estratégia petista é o desempenho fora da Capital.

Segundo o recorte do Datafolha, Ciro tem 52% no interior do Ceará, contra 34% de Elmano. Em Fortaleza e Região Metropolitana, o tucano aparece com 51%, contra 31% do petista.

Ou seja, até aqui, o mapa eleitoral apresentado pela pesquisa não mostra uma candidatura de Ciro dependente exclusivamente da Capital.

A vantagem aparece tanto no interior quanto na Região Metropolitana.

Até entre católicos Ciro abre vantagem

O cenário se repete no recorte religioso.

Entre os eleitores católicos, Ciro registra 50%, contra 37% de Elmano. Entre os evangélicos, a distância é ainda maior: 59% para Ciro e 21% para Elmano.

O resultado chama atenção porque o Ceará continua sendo um dos estados onde o eleitorado historicamente possui forte identificação com Lula e com o campo político de esquerda.

Mesmo assim, na eleição estadual, Ciro consegue ocupar um espaço muito mais amplo.

Não é apenas uma pesquisa

Outro elemento que fortalece a dimensão política do cenário é que a vantagem de Ciro não aparece somente no Datafolha.

No levantamento Ipsos-Ipec realizado entre 23 e 26 de julho, Ciro tinha 43%, contra 31% de Elmano.

Já uma pesquisa AtlasIntel divulgada em agosto apontou 49,3% para Ciro e 44,6% para Elmano no primeiro turno.

Os números variam de instituto para instituto e devem ser interpretados considerando metodologia, período de coleta e margem de erro. Ainda assim, há um elemento comum: Ciro aparece numericamente à frente de Elmano nos levantamentos recentes citados.

O desafio de Elmano

O problema político para o governador, portanto, não parece ser apenas enfrentar Ciro.

É conseguir demonstrar ao eleitor que a aprovação ou preferência por Lula deve necessariamente resultar em um voto para a candidatura petista ao Governo do Estado.

Até o momento, as pesquisas indicam que essa associação não está acontecendo de forma automática.

Ciro, por sua vez, parece ter conseguido construir uma candidatura que ultrapassa os limites tradicionais de seu campo político. O ex-governador aparece com vantagem entre homens e mulheres, diferentes faixas de renda, escolaridade, regiões do Estado e grupos religiosos. No levantamento do Datafolha, ele lidera todos os segmentos pesquisados.

Lula forte, Elmano pressionado

A eleição cearense começa, assim, com uma situação politicamente peculiar.

Lula continua forte. Ciro continua competitivo. E Elmano, apesar de contar com o apoio do presidente, ainda não conseguiu transformar essa força nacional em liderança estadual nas pesquisas.

É justamente essa equação que pode dominar o debate eleitoral nas próximas semanas.

A grande pergunta da campanha será se o eleitor cearense pretende reproduzir o mesmo voto nas duas principais disputas — Presidência e Governo do Estado — ou se continuará fazendo escolhas diferentes.

Se a segunda hipótese prevalecer, o chamado “voto Lula/Ciro” poderá se transformar em um dos fenômenos mais importantes da eleição cearense de 2026.

E, nesse cenário, o apoio de Lula continuará sendo um ativo importante para Elmano, mas poderá não ser suficiente, por si só, para tirar Ciro da liderança apontada pelas pesquisas.

Os dados e interpretações acima são baseados em pesquisas eleitorais divulgadas. Esta matéria não constitui recomendação ou preferência por qualquer candidato, partido ou grupo político.